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PPP News: Autor Convidado

Os sites de rede sociais e a pluralização da comunicação

Dr. Victor Varcelly Medeiros Farias*VictorFarias_PPPAdv

O Brasil é um país multicultural que teve durante a sua história influências dos mais diversos povos e culturas. Esse multiculturalismo pode ser encontrado na mistura de ritmos no carnaval, nas danças regionais e em outras diversas expressões culturais nacionais. Esta diversidade, todavia, ainda é parcialmente expressada na mídia nacional tradicional, ensejando questões quanto a representação das minorias discursivas e fortalecendo o debate sobre a necessidade de democratização da comunicação. Este panorama restrito, no entanto, vem sendo aos poucos modificado por uma corrente paralela criada pela ampliação do acesso à Internet, aos sites de redes sociais digitais como o Youtube e o Facebook e ao fortalecimento dos produtores autônomos de conteúdo.

O Youtube e o Facebook são sites de rede social digital que permitem a divulgação de conteúdos pelos próprios usuários. A estrutura padrão do Youtube, por exemplo, permite, sem a necessidade de contrapartida financeira direta, que o usuário crie seu próprio canal de contato com o público e divulgue os seus vídeos. Além disso, todos os usuários cadastrados no serviço podem comentar, curtir e compartilhar os conteúdos publicamente apresentados, além de se inscrever nos canais e interagir com os outros usuários. Funções similares a estas do Youtube podem ser encontradas nas Fanpages do Facebook, que possibilitam interações diretas entre figuras públicas, empresas, instituições e usuários em geral. Essas novas formas de interação entre usuários pela Internet a partir de seus conteúdos e abordagens próprias possuem um potencial significativo de pluralização da comunicação, pois permitem que grupos e temáticas detentores de reduzido espaço autônomo na mídia tradicional brasileira, como assuntos relacionados à sexualidade e a identidade de gênero, ganhem maior destaque e repercussão junto à sociedade.

Os meios de comunicação de massa no Brasil estão em sua maioria ligados a grandes empresas, que os controlam de maneira direta ou indireta e filtram seu conteúdo segundo as suas respectivas linhas editoriais. Este filtro, aliado a forma unidirecional de criação e divulgação de conteúdo típica dos meios de massa, não favorece a ampliação da pluralidade de discursos[1], pois centraliza a produção de conteúdos nas mãos de poucos. O avanço da Web 2.0 (O´Reilly 2005) na Internet por meio dos sites de redes sociais digitais, no entanto, subverte um pouco essa dinâmica, permitido a maior disseminação da produção e divulgação autônoma de conteúdos. Esta mudança trazida pelas ferramentas do ciberespaço consiste no que Lemos (2003) nomeou de segunda lei do cibercultura, que

[…] seria a Liberação do pólo da emissão. As diversas manifestações socioculturais contemporâneas mostram que o que está em jogo como o excesso de informação nada mais é do que a emergência de vozes e discursos anteriormente reprimidos pela edição da informação pelos mass media. A liberação do pólo da emissão está presente nas novas formas de relacionamento social, de disponibilização da informação e na opinião e movimentação social da rede.

Portanto, hoje é possível que uma minoria discursiva se auto-represente na Internet, por exemplo no Youtube, e consequentemente confronte ou enriqueça a interpretação sobre o seu dia a dia e os seus interesses que são apresentados à sociedade. Desta forma, cresce o número de produtores de conteúdo como o Viva Rocinha, que apresenta a comunidade da Rocinha segundo a perspectiva de seus próprios moradores, ouvindo reclamações, sugestões e reportando notícias internas. O Viva Rocinha possui perfis nos principais sites de redes sociais digitais, tendo aproximadamente vinte mil fãs no Facebook, e ainda um aplicativo próprio para divulgação das notícias. Esta legitimação de discurso das minorias, baseada na retomada da própria representação dos grupos e do indivíduo, não tem acontecido apenas com as comunidades carentes, inicialmente marginalizadas em sua divulgação nos meios de comunicação de massa, mas também atinge outros grupos os quais geralmente possuem reduzido espaço ou representação estereotipada nos meios tradicionais de comunicação como é o caso dos homossexuais.

Recentemente, canais do Youtube como o “Põe na Roda”[2], que apresenta a temática homossexual de maneira bem-humorada e voltada a conscientização, têm ganhado notoriedade, chegando a estabelecer parceria com órgãos internacionais defensores da causa, como a Organização das Nações Unidas (ONU). No vídeo “Lua de mel gay”, os atores encenam um planejamento de viagem de núpcias para diversos países, enquanto apresentam as respectivas políticas penais de cada um deles contra a homossexualidade, divulgando ao final do vídeo a campanha “Livres e Iguais” da ONU[3] que combate o preconceito contra a diversidade LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). O respectivo vídeo tem atualmente mais de cento e sessenta mil visualizações no Youtube. O canal Põe na Roda nasceu em janeiro de 2014 e atualmente acumula mais de quatrocentos mil inscritos e quarenta milhões de visualizações de seus vídeos, destacando-se como um dos principais canais de comunicação da causa LGBTT no Brasil dentro do Youtube. Em projeto de parceria semelhante a ONU atuou ainda junto ao Porta dos Fundos para divulgar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável[4], trazendo temáticas como a igualdade de gênero e a redução das desigualdades, apresentados nos respectivos vídeos “juíza” e “amiguinho” ambos[5] publicados em outubro de 2015.

Iniciativas como estas demonstram o poder de pluralização dos discursos na web 2.0 que permite a transformação do indivíduo de espectador em produtor de conteúdo. Juntos os vídeos do Porta dos Fundos e do Põe na Roda alcançaram mais de oito milhões de visualizações e com seus roteiros diferenciados apresentaram uma reflexão necessária à sociedade sobre as respectivas matérias. O mesmo pode-se dizer do Viva Rocinha, que permitiu a comunidade gerenciar sua própria narrativa, não a deixando a escolha da mídia tradicional.

Assim, após esta breve análise sobre estas três iniciativas, escolhidas dentre outras inúmeras de relevância como a cultura nerd no canal Jovem Nerd[6] e o feminismo na Jout Jout[7], é possível perceber que os sites de redes sociais digitais podem sim ter um grande papel na democratização da comunicação e no exercício da liberdade de expressão apresentada em nossa Constituição Federal, portanto, são uma forma de garantir direitos à sociedade e devem ter seus atores apoiados e estimulados. Por fim, lembre-se, busque boas referências e aproveite parar criar e ver novos conteúdos de qualidade.

REFERÊNCIAS

CETIC.br. TIC Domicílios. Disponível em: <http://data.cetic.br/cetic/explore?idPesquisa=TIC_DOM>. Acesso em: 10 maio 2016

MARTINS, Leonardo; DIMOULIS, Dimitri. Teoria Geral Dos Direitos Fundamentais: Revista, Atualizada e Ampliada. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2014.

ONU. Livres e iguais. Disponível em: <http://nacoesunidas.org/campanha/livreseiguais/>. Acesso em: 08 set. 2015.

O’REILLY, Tim. What Is Web 2.0: Design Patterns and Business Models for the Next Generation of Software. Disponível em: <http://www.oreilly.com/pub/a/web2/archive/what-is-web-20.html?page=1>. Acesso em: 07 mai. 2016.

[1] Esta temática, discutida também no curta Cordel da Regulamentação da Comunicação, divulgado em 2012 pelo Centro de Cultura Luiz Freire e disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NWs1B8goHL8. Acessado em 10 de mai. 2016

[2]  Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_opjl2GQyfY. Acesso em: 10 mai. 2016.

[3] Mais informações sobre a campanha Livres e iguais da ONU:  http://nacoesunidas.org/campanha/livreseiguais. Acesso em: 10 mai. 2016.

[4] Mais informações sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável: http://www.pnud.org.br/ods.aspx

[5] Os vídeos “juíza” e “amiguinho” podem ser acessados respectivamente em: https://www.youtube.com/watch?v=nHcQOY-Rews e https://www.youtube.com/watch?v=NxzUU-cZD1o. Acesso em: 10 mai.2016.

[6] Mais informações disponíveis em: https://www.youtube.com/user/JovemNerd. Acesso em: 10 mai.2016

[7] Mais informações disponível em: https://www.youtube.com/user/joutjoutprazer. Acesso em: 10 mai.2016

*O Dr. Victor Varcelly Medeiros Farias é mestrando em Comunicação e Contemporaneidade pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduado em Direito Digital Aplicado e em Mediação de Conflitos pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, é Sócio Pesquisador da Patricia Peck Pinheiro Treinamentos e membro da Comissão de Direito e Entretenimento do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP).
Currículo Lates: http://lattes.cnpq.br/3599267214342900
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