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PPP News: De Olho no Mercado

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Dra. Patricia Peck, Dra. Gracimeri Gaviorno, Chefe de Polícia Civil do ES e Eduardo Monteiro

Convidado: Eduardo Pinheiro Monteiro, professor e especialista em cybercrime que atua na Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social no Governo do Estado do Espírito Santo. Autor do livro “Segurança da Informação: Como se proteger no mundo Digital”, leciona na pós-graduação em Criminologia da CESV – Centro de Ensino Superior de Vitória.

1 – Estamos às vésperas de sediar os Jogos Olímpicos, um evento de projeção e visibilidade mundiais. Você acha que fizemos uma blindagem digital adequada para um acontecimento com tamanha abrangência?
Eduardo: Nos últimos cinco anos o país vem se preparando no âmbito da segurança cibernética para receber grandes eventos, como foi a Rio+20 (2012), a Copa do Mundo de Futebol (2014) e em breve as Olimpíadas do Rio (2016). Ao longo desse período várias organizações, entre elas o Centro de Defesa Cibernética (CDCIBER), a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), a Polícia Federal (PF) e empresas do setor privado, vêm em trabalho de cooperação e transferência de conhecimento, buscando capacitação de pessoal e desenvolvimento de tecnologia de ponta para garantir que as ameaças e ataques que ocorram durante os jogos olímpicos do Rio sejam controlados e não coloquem em risco conexões, infraestrutura, transmissão de dados e os resultados das competições.

Ataques certamente ocorrerão. Para ter uma ideia, durante a Copa do Mundo de 2014 o Centro de Defesa Cibernética, ligado ao Exército Brasileiro, identificou mais de 87 mil ataques diretos que foram controlados, cujos danos foram praticamente imperceptíveis. Durante as olimpíadas do Rio, o Brasil contará com cerca de 200 especialistas, militares e técnicos atuando na proteção cibernética que terão como principal missão identificar as ameaças e neutralizar suas ações antes que obtenham êxito em suas incursões. Embora a missão não seja das mais fáceis, haja vista que em sede de ambiente digital não existe ambiente 100% seguro, acredito que tivemos tempo, pessoal qualificado e tecnologia suficientes para garantir que cyberterroristas, hackers ou um adolescente aventureiro digital não comprometam o sucesso desse grande evento que reunirá no Rio de Janeiro cerca de 10.500 atletas de 206 países.

2 – Quais falhas e acertos que considera como mais significativos entre os usuários brasileiros no ambiente digital? Por quê?
Eduardo: Um relevante acerto que verificamos em relação aos usuários brasileiros foi a grande adesão registrada, principalmente nos últimos dez anos, ao ambiente digital. O brasileiro aprendeu que a tecnologia da informação veio para facilitar a sua vida na realização das atividades mais rotineiras. Mais de 100 milhões de brasileiros utilizam essa nova tecnologia para realizar compras online, estudar, trabalhar, interagir, buscar oportunidades e entretenimento, enfim, estamos cada dia mais aprendendo a identificar as potencialidades que o ambiente digital é capaz de oportunizar em nossas vidas.
No ambiente corporativo também estamos amadurecendo a cada ano. As organizações brasileiras já perceberam que o ambiente digital é imprescindível, seja qual o ramo do seu negócio, pois a tecnologia da informação permite que suas áreas operacionais, gerenciais e estratégicas trabalhem com mais eficiência e eficácia.
Por outro lado, é possível encontrarmos falhas. O brasileiro precisa buscar um grau de amadurecimento maior no uso dessas novas tecnologias da era da sociedade da informação, pois não é raro verificarmos ausência dos cuidados mais básicos que o ambiente requer, como por exemplo, a utilização de um bom antivírus e a realização de cópia de segurança (backup) dos seus dados, que devem ficar armazenados em um lugar seguro. Ainda é possível constatar, tanto nos usuários domésticos como nos corporativos, inobservância de dois princípios básicos na utilização da tecnologia digital. Falham ao não utilizarem as técnicas recomendadas para proteger seus dados, tais como utilização de criptografia e de métodos de criação de senhas complexas.
Por essas e outras, concluímos que ainda é necessário elevarmos o nível de boas práticas do uso do ambiente digital para finalmente atingirmos um patamar que garanta qualidade e segurança em sua utilização.

3 – Você desenvolveu um estudo que aponta a maior incidência de mulheres entre as vítimas dos crimes virtuais. É possível considerar que a violência no ambiente digital é reflexo da própria sociedade? Detalhe.
Eduardo: Certamente. Não há dúvidas que a violência do mundo atual acompanha a evolução tecnológica e migra também para o ambiente digital. Em um estudo que realizei para um mestrado em segurança pública, em que adotei como linha de pesquisa a utilização da Internet como meio de fomentação da violência, constatei ao final, que as mulheres são as maiores vítimas dos crimes virtuais, seja quando o objetivo é meramente econômico ou mesmo quando tenha cunho pessoal.
O estudo foi feito com base em análise de ocorrências policiais registradas em delegacias de polícia, no qual foi constatado que as mulheres sofrem vários tipos de violência também no ambiente digital, tais como, violência psicológica, moral, material e sexual. Elas acabam se tornando o grupo mais vulnerável do mundo virtual devido a vários aspectos, entre eles, a falta de informação e conhecimento da tecnologia, o descuido com a própria privacidade, a falta de cuidados ao se relacionar com estranhos e até mesmo por ingenuidade.
Devido a esses fatores, milhares de mulheres de todo o país acabam sendo vítimas de estelionatários, vigaristas virtuais, sequestradores e maníacos sexuais. A melhor forma de mudarmos esse quadro é a informação. Precisamos utilizar a própria tecnologia da informação para difundirmos os riscos, as armadilhas existentes no espaço cibernético, bem como as melhores maneiras de se proteger, para que desta forma, qualquer internauta, e em especial as mulheres, possam utilizar a tecnologia com mais segurança, sem integrarem as estatísticas de violência de nosso país.

4 – O uso da Internet começa cada vez mais cedo entre crianças e adolescentes. Quais medidas de segurança julga serem essenciais mediante esta nova realidade?
Eduardo: Em um mundo cada vez mais tecnológico, é inevitável que crianças e adolescentes sejam inseridos no mundo das novas tecnologias da sociedade da informação em seus primeiros anos de vida. Porém, a utilização dessas novas tecnologias requer uma série de cuidados e acompanhamento dos pais. Os riscos estão por toda parte, desde a utilização inadequada dos recursos dos dispositivos tecnológicos, passando pela exposição exagerada que pode facilitar a ação de um criminoso até a questão do uso prejudicial da tecnologia, que pode levar a criança ou o adolescente a ter problemas de saúde, isolamento social ou até mesmo queda no rendimento escolar.
Desta forma, para que crianças e adolescentes utilizem a tecnologia da informação de uma forma segura e saudável, é preciso que os pais acompanhem e orientem seus filhos diariamente. Os pais precisam fazer com que seus filhos entendam que no mundo digital, tal como na rua e demais locais públicos, é preciso estar sempre em estado de alerta, pois não são poucas as pessoas mal intencionadas que a todo instante tentam se aproveitar da ingenuidade e inexperiência de uma criança ou adolescente para atingir seus objetivos criminosos mais diversos.

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